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Journal Club 10

Efeitos multifacetados da valência antigênica na resposta e diferenciação de células B in vivo

Journal Club  07.10.2020 – Apresentadores: Natalia Serra Mendes e Thales Eduardo Galdino Andrade

 A valência antigênica pode ser definida como os diferentes níveis quantitativos de um antígeno (ou partes dele) em uma mesma molécula, podendo haver inúmeros epítopos (porções do antígeno que podem gerar resposta imune) disponíveis para diversos receptores de célula B (BCR), induzindo fortes sinalizações estimuladoras dessas células1. Desse modo, a valência antigênica é um fator determinante sobre as respostas de células B no contexto de infecções virais, autoimunidade e vacinologia, estando associada a títulos mais elevados de anticorpos e uma resposta mais eficiente. No entanto, pouco se sabe a respeito dos mecanismos envolvidos no efeito da valência antigênica sobre as células B in vivo. No trabalho publicado por Kato e colaboradores2 objetivou-se compreender a influência da valência antigênica sobre a dinâmica populacional de células B no linfonodo in vivo. Para isso, os autores utilizaram imunizações com quatro valências do antígeno eOD-GT5 (proteína de HIV bioengenheirada de alta afinidade com o anticorpo VRC01gHL), sendo elas o monômero (1mero), tetrâmero (4mero), octâmero (8mero) e hexacontamero (60mero). Inicialmente, observaram que os animais imunizados com o antígeno de maior valência (60mero) apresentavam células B com maiores níveis de ativação, comprovado pela expressão dos marcadores (xxx), assim como altos níveis de proliferação (97%) de células B antígeno-específicas (VRC01gHL). Entretanto, o monômero foi incapaz de induzir divisão celular. Também observaram que a alta valência antigênica induziu diferenciação dos linfócitos B em células do centro germinativo (CG) e a plasmócitos (PC), de forma dependente de linfócitos TCD4+. É importante destacar que, além da valência antigênica (número de repetições do antígeno na molécula), a afinidade do antígeno com o BCR é importante para a resposta imunológica. A afinidade é definida como a força de ligação entre o antígeno e o BCR, podendo um antígeno ter alta valência, porém pouca afinidade, e vice-versa. Por esse motivo, além do antígeno eOD-GT5 (alta afinidade), os autores utilizaram uma variante chamada eOD-GT2 de baixa afinidade com as células B VRC01gHL e avaliaram o impacto sobre a dinâmica dessas células. Ao se avaliar o contato das células B VRC01gHL com as células TCD4+ no linfonodo, notou-se que o antígeno de alta afinidade e baixa valência (eOD-GT5 4mero) gerou pouca interação B-TCD4+, enquanto os antígenos de alta valência (eOD-GT2 60mero, eOD-GT5 60mero) induziram muito contato entre as células, não havendo influência da afinidade antigênica. Quanto às células B do CG, foi visto que a alta valência (60mero) recruta células B VRC01gHL de baixa afinidade para o centro germinativo do linfonodo, enquanto a baixa valência (4mero) recruta células B de alta afinidade. Algo similar foi visto quanto às células PC; a imunização com o 60mero induz mais PCs e maiores títulos de anticorpos. mas PCs com menor afinidade ao antígeno. Por fim, foi avaliada a persistência das células B VRC01gHL no CG do linfonodo, e perceberam que a alta valência antigênica facilita a persistência de células antígeno-específicas por até 28 dias após a imunização. Em conclusão, esse estudo foi capaz de demonstrar o papel fundamental da valência antigênica ditando aspectos da resposta precoce de células B, magnitude das respostas de CG, PC, e a afinidade das células recrutadas (Fig. 1)3.

Figura 1. Efeito dos diferentes níveis de valência e afinidade antigênica sobre a diferenciação e resposta das células B no folículo do linfonodo de forma dependente de células T CD4+.

 

Referências

1. Brunswick, M. et al. Different patterns of inositol polyphosphate production are seen in B lymphocytes after cross-linking of sIg by anti-Ig antibody or by a multivalent anti-Ig antibody dextran conjugate. J. Immunol. 143, 1414–1421 (1989).
2. Kato, Y. et al. Multifaceted Effects of Antigen Valency on B Cell Response Composition and Differentiation In Vivo. Immunity. 53, 548-563 (2020).
3. Finney, J.; Kelsoe, G. Ideal Vaccines: Balancing B Cell Recruitment and Differentiation. Immunity. 53, Issue 3, 473-475 (2020).