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Journal Club 04

Imunotipos distintos obtidos por meio de perfilhamento imune profundo de pacientes com COVID-19 indicam novas opções de terapias

Journal Club  26.08.2020 – Apresentadores: Ricardo Cardoso Castro e Beatriz Lima Adjafre
Editado por Isabel Kinney Ferreira de Miranda Santos

A infecção causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV2), denominada COVID19, já levou a mais de 800.000 mortes e 23 milhões de infectados ao redor do globo e é a patologia mais grave enfrentada pela humanidade nos últimos 100 anos, sendo superada apenas pela pandemia de gripe espanhola (1918). Os mecanismos pelos quais o vírus causa a patologia, que tem como principal característica a evolução dos pacientes para a síndrome aguda respiratória grave ou SARS (Severe Acute….), permanecem nebulosos e diversos estudos investigam o papel da resposta imune na resolução ou na piora do quadro clínico.

O objetivo do estudo foi analisar de forma integrada diversos perfis imunológicos, clínicos e epidemiológicos de 125 pacientes com COVID-19 em atividade no primeiro e no sétimo dia de internação hospitalar em comparação com os mesmos perfis apresentados por 36 indivíduos que se recuperaram da COVID-19 e com 60 que nunca haviam tido a infecção pelo SARS-CoV2.  Tal delineamento permite compreender com detalhes a relação da diversidade de resposta imune com as manifestações clínicas ao longo da evolução da COVID-19, ou seja, a infecção pelo vírus quando está clinicamente manifesta e após sua resolução.

Mais de 200 características imunológicas foram obtidas utilizando-se citometria de alta dimensão, além de outros testes pertinentes à doença, e os resultados foram analisados de forma integrada com mais de 50 características clínicas. Essa estratégia permitiu evidenciar perfis heterogêneos de respostas imunes, onde uma parte considerável dos pacientes com COVID-19 ativo exibiram principalmente perfis compostos por populações de células T (CD8 e T CD4) ativadas e respostas significativas de plasmablastos (PB), enquanto que outro subgrupo de pacientes apresentou assinaturas de uma resposta antiviral mínima, semelhante ao de indivíduos controle.

De forma importante por causa das implicações dos resultados para inovar e/ou orientar intervenções terapêuticas, as abordagens integradas de dados e análises computacionais de correlação permitiram identificar assinaturas imunológicas associadas às trajetórias de mudança da gravidade da doença. Essas análises identificaram três “imunotipos”: o imunotipo 1 foi caracterizado por populações de células T CD4 e T CD8 hiperativas, células com baixa expressão de CXCR5, alterações na frequência de células T foliculares circulares (cTFH) e respostas aumentadas de plasmablastos, sendo que esse imunotipo foi associado a evolução grave da doença. O imunotipo 2 foi caracterizado por uma população de células T CD4 e CD8 T-bet+, células B de memória T-bet+ e KI67+, já vistas comumente como em respostas imunes a outros vírus. Já o imunotipo 3 foi caracterizado por de resposta de linfócitos T e ativação de linfócitos B, sugerindo uma resposta imune menos robusta associada a patologia menos grave (Tabela 1).

Os resultados desse trabalho sugerem que as respostas imunes de pacientes hospitalizados com COVID-19 podem se enquadrar nesses padrões de resposta, apresentando-se como imunotipos distintos associados a características clínicas, gravidade da doença e mudanças temporais na resposta e na patogênese. Além disso, os autores postulam que essas abordagens poderiam ter implicações importantes para favorecer o desenvolvimento de terapêuticas direcionadas e o desenvolvimento de vacinas contra o SARS-CoV2.

 

Tabela 1. Características imunológicas e componentes Uniform Manifold Approximation and Projection (UMAP) correlacionados com os imunotipos de pacientes com COVID-19. Síntese dos três imunotipos identificados, destacando as características imunes (assinatura imune) e as associações com componentes UMAP.