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Journal Club 02

É melhor correr antes que a inflamação te pegue!

Journal Club 17.08.2020 – Jefferson Elias e Cleyson da Cruz Oliveira Barros
Editado por Daniela Carlos Sartori e Vanessa Carregaro Pereira

Frodermann V. Exercise reduces inflammatory cell production and cardiovascular inflammation via instruction of hematopoietic progenitor cells. Nature Med, 2020. doi: 10.1038/s41591-019-0633-x.

Nos últimos anos, mudanças no estilo de vida, incluindo o sedentarismo e má alimentação tem se tornado fatores determinantes no surgimento da obesidade e complicações associadas a nível mundial [1]. Consequentemente, o número de pacientes com alterações cardiovasculares, tais como a aterosclerose, tem aumentado drasticamente. Esta patologia decorre da deposição de placas de gordura denominadas como ateroscleróticas, que resulta no enrijecimento e obstrução das paredes das artérias. Em pacientes que desenvolvem essa patologia ocorre aumento de leucócitos circulantes ou leucocitose, o qual está correlacionado com a deposição de placas ateroscleróticas [2]. Sabe-se que uma das maneiras de reduzir riscos cardíacos como infarto do miocárdio ou aterosclerose é a prática regular de atividade física [3].

Baseado nestas evidências, os autores investigaram o impacto do exercício físico no processo de hematopoese dos indivíduos ou em modelos experimentais.           No primeiro momento, indivíduos que praticam atividade física tiveram redução do número de leucócitos no sangue, da proliferação de células progenitoras quiescentes (LSKs) e multipotentes (MPPs). Adicionalmente, percebe-se que indivíduos que praticam atividade física apresentaram baixas concentrações de leptina no tecido adiposo, sangue e medula óssea. De maneira interessante, foi constatado que leucócitos e células progenitoras não expressam o receptor de leptina, mas que as células estromais presentes na medula óssea expressam o seu receptor, indicando que a leptina exerce seu efeito na leucocitose via sinalização em células estromais.

Analisando o perfil da população, os indivíduos praticam exercícios físicos em diferentes períodos da vida. Sabendo disso, os autores investigaram se o exercício físico teria a capacidade de modular a nível transcricional as células progenitoras e assim, reduzir sua proliferação celular. Curiosamente, a prática de exercício físico antes ou após o sedentarismo induziu modificações epigenéticas nas LSKs, nos quais genes relacionados ao ciclo celular foram menos acessíveis a transcrição, reduzindo assim sua proliferação. Neste contexto, feito evidenciado o efeito benéfico do exercício físico durante o infarto do miocárdio, uma vez que ocasionou diminuição do número de leucócitos inflamatórios, células progenitoras, assim  como contribuiu para recuperação clínica dos animais. Por fim, pacientes que possuem aterosclerose e praticam atividade física apresentaram redução  da leucocitose e das concentrações de leptina, demonstrando a importância da atividade física  em limitar a proliferação de células progenitoras, inflamação e favorecer a melhora clínica.

Figura 1. Atividade física promove reduzida proliferação de LSK e confere resistência ao desenvolvimento da aterosclerose.  Indivíduos Sedentários (camundongos em cinza) possuem níveis aumentados de leptina que sinalizando em células estromais ósseas diminuindo a produção de fatores quiescentes relacionados as LSK. Com isso, LSK aumentam sua proliferação e consequentemente a leucocitose. Por outro lado, animais que praticam atividade física (camundongos em azul) produzem menos leptina aumentando a produção de fatores quiescentes e alterando epigeneticamente LSKs, reduzindo a mielopoiese e linfopoiese e diminuindo os riscos na aterosclerose.

 

Referências

1.Ridker, P. M. Residual infammatory risk: addressing the obverse side of the atherosclerosis prevention coin. Eur. Heart J. 37, 1720–1722 (2016).
2. Ridker, P. M. et al. Anti-infammatory therapy with canakinumab for atherosclerotic disease. N. Engl. J. Med. 377, 1119–1131 (2017).
3. Lavie, C. J., Ozemek, C., Carbone, S., Katzmarzyk, P. T. & Blair, S. N. Sedentary behavior, exercise, and cardiovascular health. Circ. Res. 124, 799–815 (2019)